Comentário sobre Average Betty e Larica Total
Eu sempre achei vídeos de receitas e programas de receitas uma chatice só. Como talvez vocês devem ter percebido pelos meus posts, minha área na gastronomia é a cultura geral e o que vem junto com ela, a sociedade, a mídia, e obviamente os sabores e ingredientes, mas as receitas, propriamente dito, não são para mim. Nas poucas vezes em que cozinho vou de instinto mesmo ou de coisas que vi fazerem, mas jamais penso em receita. Claro que não sou contra – não dá prá ser contra, e adoro quem consegue gostar mesmo de receitas, como fórmulas mágicas, mas é que não me afino muito com elas, devo ter déficit de atenção, ou algo parecido.
Mas voltando aos programas de receitas, tem um monte de programa chato por aí, e em geral eles são de dois tipos, ou os tradicionais para donas-de-casa, aqueles que passam de manhã ou à tarde na TV, tipo Ana Maria Braga ou Palmeirinha, ou então os gourmets finos e sofisticados, tão sedutores e inatingíveis como fúteis, como o insuportável Claude Troigros.
Aí no meio termo ficam outros, mais normais e mais voltados à comunicar algo de verdade para o público de massa da TV, como o Allan Vila, mas que em geral acabam, por isto mesmo, ficando sem sal, meio toscos e …chatos.
Com a mudança causada pela web, finalmente surgiu vida no front. Algumas pessoas que enxergaram que receita é uma coisa chata prá muita gente, que a maioria quer aprender mas não consegue fixar atenção (ainda mais hoje em dia), quer comer bem mas não quer ter que assistir aulas de culinária para isso, enfim, gente normal e comum. E uma das boas maneiras de entreter e envolver a audiência é o humor, e juntar humor com culinária pode render excelentes pratos, frutos e audiência (veja meu post “celebrities chefs” a este respeito).
O Larica Total, do Paulo Tiefenthaler, que brilhantemente inventou o Paulo de Oliveira, e que todo mundo aqui já deve ter visto (certo?), é uma sátira bem humorada desta chatice toda, e que pela sua capacidade de traduzir perfeitamente o cidadão médio brasileiro e sua cozinha prá lá de “a mais comum do país”, é de um humor sagaz, meio escárnio e meio expressionista. Claro que não agrada a todos, pois a grande maioria ainda quer ver na TV aquilo que não tem em suas vidas, glamour, beleza e um ar de savoir faire. O programa dele parece tosco, mas é bom e não só engraçado não, é bom mesmo. Paulo foi um dos que mais conseguiu levar o novo “código social” da web 2.0 para a estrutura de um programa de TV com um tema que não é sobre vida digital e nem é um reality show. Não tem muitos programas assim na TV brasileira.
E tem a Average Betty, uma americana muito engraçada, que faz mais o tipo sátira-clown, e que foi muito feliz na narrativa geral de suas imagens e na estrutura de seus vídeos, intercalando receitas com umas sketchs bem divertidas que têm como fórmula a sátira ao americano médio através da personagem super típica, a Betty. E seu canal no youtube está crescendo rápido. Repare em seu vídeo abaixo que a inserção da receita no episódio é só através de vários flashs curtíssimos durante a narrativa geral, instantaneidade total.
Uma grande diferença da Average Betty e do Paulo de Oliveira, é que as receitas da Betty são reais e podem ser preparadas mesmo, são sérias – ela deve ser realmente amante de cozinha, enquanto o Paulo é um ator e suas receitas não são na verdade receitas, e sim ironia de hábitos.
Ok, os programas de receitas podem realmente deixar de ser chatos quando são criativos, e aí podem conseguir atrair a atenção de seu público através de bons recursos de narrativa ou humor, mas no Brasil se você quiser mesmo aprender a preparar um prato específico, ou novas técnicas, infelizmente ninguém ainda colocou no ar uma solução legal, ou seja, você vai ter mesmo que continuar seguindo os programas existentes… e que por aqui ainda são só de dois tipos: aqueles fúteis para quem quer se achar gourmet ou aqueles chatos para donas-de-c…… ué já falei isto antes?
Divirta-se aqui com dois episódios que gostei:
AverageBetty e sugar cookies para o dia dos namorados (valentines por lá):
Larica Total e o sushi de feijoada (parte 2/2)…
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cara, bem pertinente essa tua observação sobre os programas de tv. mas ó, dois que eu gosto por achá-los despretensiosos e acessíveis: o do jamie oliver, e da nigella. esses dois são exceção à regra, certamente!
abs
Oi Diogo, concordo com vc, eu tb gosto dos dois, principalmente o da Nigella. É que eu tava citando os brasileiros. Acho que tanto o Jamie como a Nigella são exceção sim, não usam o humor mas usam narrativas interessantes, cada programa deles é uma história diferente que eles contam, sem contar que o programa da Nigella é de uma sensualidade tremenda com todas aquelas tomadas em close, não é não? Ela é demais! ;)