Mais sobre a ‘purificação’ da gastronomia na Itália

Em relação à expulsão de restaurantes não italianos em algumas cidades da Itália, que é o tema do meu post do dia 3 de fevereiro “Pasta x Kebab: um conflito ignorante”, mais águas estão rolando na imprensa internacional. Com reposta do ministro italiano.

No dia 6, Matthew Fort, do The Guardian, também publicou um artigo criticando a xenofobia do governo italiano que decidiu expulsar de algumas cidades os restaurantes étnicos não italianos numa tentativa de purificação da cozinha italiana pela força da lei. Ele repete que a culinária italiana é formada por influências de diversas outras culturas e que, em geral, grande parte dos italianos não somente critica outras cozinhas em seu território como costuma também criticar fortemente a culinária praticada em restaurantes italianos em outros países. Independente do mérito (muitas vezes estes restaurantes são ruins mesmo), ele ressalta que isto não é problema deles e que cada um tem o direito de cozinhar o que quer.

Ironicamente ele diz ainda que os italianos desde a hora em que acordam pela manhã buscam sempre comer a melhor comida que seu dinheiro pode comprar, o melhor possível, buscando sempre algo memorável o tempo todo, e que por isto passam a vida toda procurando a comida da mãe. 

La Mamma

Matthew Fort está claramente contra esta tendência de discriminação na Itália, mas termina seu artigo com uma questão interessante. Diz que o movimento  Slow Food foi criado para contra-atacar a invasão de uma culinária globalizada na Itália simbolizada pelo McDonald’s, e que ”para também não montarmos no nosso alto cavalo da moral” pergunta: “Há diferença entre levantar dois dedos contra a invasão da comida americana ou contra a comida do Oriente Médio, Índia ou China?” Ou seja, deve-se considerar o porquê de um movimento ter sido tão bem aceito pelo mundo enquanto esta atual repulsa oficial é vista como xenofobia.

E eu respondo. Simplesmente porque o movimento Slow Food é um movimento criado pela sociedade organizada, de forma democrática, adere quem quer, e não tem força policial para expulsar ninguém. Já a atual demonstração de xenofobia cultural, aqui em questão, são canetadas de governantes de direita que cerceam o direito de cidadãos regularmente estabelecidos e definem por lei a posição que a sociedade italiana deve tomar sobre um assunto que é de origem cultural. É portanto discriminação.

Com tudo isto, e não se aguentando na sua cadeira do renascimento em algum palácio romano da monarquia pós-unificação, o ministro italiano de políticas da agricultura e alimentação, Luca Zaia, respondeu hoje no Guardian às críticas de Matthew, dizendo que a culinária italiana não foi importada nos século 18 (ou 16 e 17), e sim vem da Roma Antiga, da época dos Cesares. Ave Cesar.

Ok, comida dos Cesares ou comida importada, tradições ou novidades na história, continuo defendendo firmemente que é impossível controlar o fluxo cultural através de leis que cheiram xenofobia ou qualquer tipo de intolerância, NÃO SE PODE EXPULSAR uma cultura, além do respeito aos direitos dos imigrantes, simplesmente porque isto não funciona. Eles deveriam é criar mais escolas de culinária italiana tradicional, aprimorar a qualidade de seus produtos e seus restaurantes, incentivar a profissionalização dos cozinheiros, seguir com suas certificações nacionais e internacionais (há várias associações italianas que fazem isso e eu as apoio), e promover seus valores, SEM mexer com os detentores de outras culturas ou os amantes de hamburguers, kebabs, rolinhos primavera ou o que mais for.

Para quem tem interesse no assunto, vale muito a pena ler os dois artigos citados, mais uma vez aqui vão os links, do crítico do The Guardian e da resposta do ministro italiano.

 

PS. Aqui no Brasil faço parte de uma entidade que defende e promove a cultura culinária brasileira, em suas diversas regionalidades, sou favorável e ativista da preservação cultural, da manutenção das tradições, da identidade dos povos, da valorização das culturas locais, etc. Mas sempre com a aceitação dos outros, da diversidade cultural, da inovação coerente, das tendências e da vital importância das vanguardas, e principalmente, sempre sem canetadas de governos que preguem a exclusão!!

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